A Binance removeu todos os pares de negociação com USDT (Tether) para usuários localizados na Área Econômica Europeia (EEA). A decisão impacta diretamente investidores que utilizam a stablecoin mais popular do mercado e marca uma mudança significativa no cenário das criptomoedas na região.
O motivo? A entrada em vigor do regulamento MiCA (Markets in Crypto-Assets), criado para dar mais estrutura e transparência ao setor de ativos digitais na União Europeia.
O que é o MiCA?
O MiCA é um conjunto de regras aprovado pela União Europeia que entrou em vigor em 2024, com prazos de implementação total até 2025. Ele traz um conjunto de exigências claras para emissores e plataformas que lidam com ativos digitais, incluindo:
- Regras específicas para stablecoins, exigindo lastro total e auditorias regulares;
- Registro obrigatório de empresas de cripto que operam na UE;
- Transparência nos processos de emissão e funcionamento de tokens;
- Responsabilidade legal sobre a operação e gestão desses ativos.
O principal objetivo do MiCA é proteger consumidores e garantir estabilidade financeira, evitando riscos sistêmicos no ecossistema cripto.
Por que o USDT foi afetado?

O Tether (USDT) é a stablecoin mais utilizada no mundo, mas também uma das mais controversas. Ele já enfrentou críticas por:
- Falta de transparência nas reservas que sustentam seu valor atrelado ao dólar;
- Auditorias consideradas insuficientes ou incompletas;
- Sede em jurisdições com regras mais flexíveis.
O MiCA impõe critérios muito específicos para stablecoins que são classificadas como “tokens referenciados a ativos”. Isso inclui:
- Publicação periódica de relatórios de auditoria;
- Registro do emissor em uma autoridade da UE;
- Prova clara de que o valor da stablecoin está totalmente respaldado.
A Tether Limited, emissora do USDT, ainda não atende a essas exigências e não demonstrou intenção clara de se adaptar às novas regras europeias — pelo menos até o momento da decisão da Binance.
Como a Binance respondeu ao MiCA?
Para manter a conformidade com a legislação europeia, a Binance:
- Removeu os pares de negociação com USDT para clientes da EEA;
- Redirecionou os usuários para pares com stablecoins que seguem o MiCA, como EUR, USDC e EURC;
- Comunicou que continuará a operar na região, mas em conformidade com a nova estrutura regulatória.
A medida foi apresentada como uma forma de evitar riscos legais e manter o acesso ao mercado europeu, que é uma parte estratégica para a exchange.
O que acontece com os fundos dos usuários em USDT?
Usuários europeus que possuem USDT nas suas carteiras da Binance não perderam os fundos. A moeda continua visível e transferível dentro da plataforma, mas os seguintes recursos foram desativados:
- Negociação em pares com USDT;
- Utilização de USDT como margem em contratos futuros;
- Participação de USDT em produtos como staking ou savings.
A Binance sugeriu que usuários europeus considerem converter seus USDT para stablecoins compatíveis com o MiCA, como o USDC, emitido pela Circle, que já opera dentro das exigências regulatórias.
Quais outras moedas foram impactadas?
Além do USDT, a Binance indicou que também vai interromper o suporte a outras stablecoins que não se alinham ao MiCA, incluindo:
- DAI (do protocolo MakerDAO);
- FDUSD (First Digital USD);
- TUSD (TrueUSD);
- PAX (Paxos Dollar).
Isso mostra que a mudança não é exclusiva ao Tether, mas parte de um movimento maior para adaptar o ecossistema de criptoativos às normas da União Europeia.
O que muda para o setor?
Essa decisão reforça a tendência global de maior regulamentação no setor de criptomoedas. A Europa está entre os primeiros blocos econômicos a adotar uma estrutura abrangente como o MiCA, e isso pressiona:
- Exchanges globais a se adaptarem ou perderem mercado;
- Emissores de stablecoins a adotarem práticas mais transparentes;
- Usuários a reconsiderarem quais moedas usar para manter liquidez e segurança.
No longo prazo, espera-se que outras jurisdições, como os Estados Unidos, adotem modelos parecidos — o que pode reduzir ainda mais o espaço para stablecoins que operam fora de padrões regulatórios.
Impacto no Brasil
Embora a medida seja exclusiva para a Europa, vale observar que o Brasil também caminha para regulamentar o setor cripto, desde que o Banco Central assumiu o papel de supervisor do mercado em 2024. Isso pode levar, futuramente, a restrições semelhantes ou exigências específicas para o uso de stablecoins por plataformas que operam no país.
Usuários brasileiros que utilizam plataformas internacionais, como a Binance, devem ficar atentos às mudanças locais e globais, principalmente em relação à compatibilidade de moedas estáveis com regulações futuras. Em qualquer caso, os avisos são muitos e atempados, com a oportunidade de converter esses ativos em outros que cumpram com a regulamentação.
Conclusão: A maturidade deixa questões
A remoção do USDT na Europa marca um momento decisivo para o setor de criptoativos. A ação da Binance mostra que a era da autorregulação está ficando para trás e que a conformidade regulatória será cada vez mais essencial para continuar operando em mercados estratégicos.
Para investidores e entusiastas, a principal lição é clara: acompanhar as mudanças regulatórias não é opcional — é parte da segurança e da estratégia de longo prazo no universo cripto. Estaremos a quebrar todos os princípios que sustentavam as criptomoedas enquanto sistemas independentes e mais justos?
Acredito que sim e o tempo demonstrará que muitas das promessas de liberdade e equidade ficarão para segundo plano. Afinal, atualmente grande parte dos criptoativos mais importantes não estão na mão do cidadão comum, mas sim em grandes corporações.